Com o som de um caminhão buzinando na rua, Felipe desperta. Sentiu fios de cabelo na sua orelha. Com uma rápida olhada viu os cabelos encaracolados castanho escuros da mulher deitada ao seu lado. Olhou para o teto e começou a refletir sobre o que teria acontecido na noite anterior. Nunca havia bebido tanto a ponto de perder a consciência desta forma. Olhou o relógio ao lado e viu que eram três horas da tarde. Lembrou que era sábado. Observando fixamente o ventilador de teto, começou a relembrar a noite anterior.
Ele e Gabriel estavam se arrumando para sair. Seria a primeira vez que sairiam juntos desde que Gabriel tinha se mudado, e isso fazia duas semanas. Felipe já estava pronto aguardando na sala e Gabriel estava vestindo as calças quando tocaram a porta. Era Marcelo e uma garrafa de vodca. Marcelo tinha 34 anos, um metro e setenta, um porte médio com uma pancinha típica dos bohemios. Tinha curtos cabelos escuros penteados para trás e olhos castanhos, um rosto arredondado e um cavanhaque com pelos negros. Vestido com um paletó preto e uma camisa bordô era um próprio carcamano. Como era de se esperar, chegou já meio bêbado e gritando.
- ESTÃO PRONTAS BONECAS? – gritou - Hoje a noite é por minha conta. Vamos beber e fuder até não poder mais.
Felipe repensou a idéia de ir. Mas agora sabia que não podia voltar atrás.
- Fala Marcelino, tudo tranqüilo? Onde vai ser a noite hoje? – disse Gabriel saindo do quarto indo para a cozinha.
- Bom meus queridos, este humilde servo do mal levará vocês ao RedClub. Muitas vadias nuas, muita bebida e pouca gente. Hoje a festa é vip. Somente convidados da casa. E eu como sempre tenho passe livre. Sou amigo da dona. Dei vários banhos com a língua naquela safada gostosa.
Gabriel riu e abriu uma cerveja. Estava vestindo uma jaqueta cinza de couro, camiseta preta e jeans azul. Seu clássico cabelo desarrumado como sempre e a barba por fazer. Encostou-se na porta da cozinha e apontou com a cabeça sorrindo para que Marcelo olhasse para Felipe.
- Garoto – perguntou Marcelo sorrindo – que porra de roupa é essa?
Felipe vestia com uma calça sarja preta, uma camisa pólo branca abotoada até em cima e um blusão que ele parecia ter roubado de seu avô, fechado com dois botões na altura do umbigo formando uma gola “V” até metade do tórax. Marcelo aproximou-se, tomou um gole da vodca e largou a garrafa sobre a mesa. Quando chegou desabotoou o blusão, tirou e o jogou no sofá. Enquanto desabotoava a pólo, Gabriel desarrumava seu cabelo. Marcelo, concluiu com o gesto de um artista terminando sua obra.
- Ainda parece um filhinho de papai que veio do interior. Mas está mil vezes melhor que antes.
- Então vamos embora que eu quero beber – disse Gabriel pegando a garrafa de vodca e caminhando em direção da porta.
A boate RedClub era um prédio de 3 andares, sem janelas nos dois primeiros e algumas sacadas no terceiro. A fachada era pintada de preto e tinha uma pequena porta estofada com uma grande maçaneta prateada. Acima da porta, havia uma placa com as letras vazadas, iluminadas por uma luz vermelha vinda de trás com o nome do lugar. A boate era no caminho para a zona rural da cidade. Diziam as más línguas, que a dona do lugar era quem comandava o tráfico de drogas na região, e que o lugar era afastado para que fossem praticadas atividades ilícitas em todo o terreno em volta da boate, que era usado como estacionamento. Seu nome mesmo ninguém sabia, mas todos a chamavam de Sara. Quando estavam parando na frente do lugar, Sara estava saindo na porta e foi ao encontro de Marcelo quando desceram do carro. Marcelo jogou a chave na mão de um dos brutamontes que se aproximavam para que ele estaciona-se o seu carro. Felipe ficou impressionado com a beleza e classe daquela mulher. Devia ter seus 45 anos, pois assim como o nome a verdadeira idade era desconhecida, tinha longos cabelos pretos até a cintura, olhos azuis, e uma pele extremamente clara. Seu corpo era perfeito de uma forma inimaginável. Enormes seios, uma cintura muito fina e uma enorme bunda que seguia uma linha formando o par de pernas mais perfeitos que ele já tinha visto. Um curto, mas respeitoso, vestido vermelho colado a aquele corpo espetacular e um salto com tiras até metade das canelas. Ela aproximou-se e abraçou Marcelo de uma forma repleta de respeito de ambas as partes. A voz dela soava como a mais bela música clássica e sexy devido ao seu sotaque italiano.
- Marcelo, meu amado. Por onde andava meu – falou em italiano - consigliere e amico intimo?
Felipe estranhou ver o até então bebum Marcelo agir praticamente como um lord.
- Olá coração – falou ele em um tom tranquilo – perdão por minha ausência nos ultimos tempos, mas sabe que os negócios estão tomando muito do meu tempo. Mais do que eu gostaria.
Ela o olhava sorrindo com um rosto angelical. Virou para Gabriel que a olhava fixamente nos olhos com um certo ar maligno.
- Você é o tão falado Gabriel Ruschel. Marcelo sempre me falou muito bem de você. E isso que me fez ler seus artigos e atiçar uma certa curiosidade.
- Muito prazer linda. Mas me interessei por saber que tipo de curiosidade lhe atiçou?
- Conversamos sobre isso mais tarde – respondeu ela com um sorriso espetacularmente lindo – vamos entrar todos e tomar alguma coisa.
Como Felipe estava praticamente escondido atras de Gabriel, ela nem o viu. Ela saiu andando na frente de uma forma que poderiam ser empilhadas taças na sua cabeça que elas não cairiam.
Haviam poucas pessoas na boate. Era literalmente uma festa só para amigos. Sentaram-se em uma mesa coberta por uma toalha de seda em poltronas estofadas. Quando Sara sentou o garçom prontamente veio perguntar quais seriam os pedidos.
- Para o meu amico Marcelo aquele vinho de minha adega pessoal. Para o senhor Gabriel, aquela garrafa que trouxe da Rússia na semana passada, e para o... – fez uma pausa – perdoe-me jovem repórter por não ter me apresentado.
Felipe acenou com a cabeça sorrindo demonstrando que não havia problema algum e ela continuou:
- O jovem – fez uma cara pensativa – acredito que goste de vinho? – ele acenou novamente – Traga três taças.
O garçom acenou com a cabeça e se retirou.
Começaram os shows das strippers e Felipe ficou enlouquecido. Nunca vira tantas lindas mulheres reunidas em um só lugar. As garçonetes que passavam fitavam-no, pois ele era um rapaz atraente, mesmo com seu perfil de certinho. Ao termino do show, Marcelo olhou para duas garotas e as chamou com um gesto. Elas aproximaram-se e sentaram ao seu lado. Gabriel e Sara estavam conversando sobre a Europa e se olhavam e riam de forma convidativa. E Felipe estava sentado sozinho interagindo com a garrafa de vinho e observando os passos de uma linda morena de cabelos crespos que também o olhava.
Conforme ia pensando, só conseguia lembrar de uns flashes, ele terminando com a garrafa de vinho, a morena sentando em seu lado, ele contando piadas na mesa agradando aos presentes e lembrava do momento que Gabriel sumiu com Sara. Fazia um enorme esforço para lembrar mais, mas sua memória não ajudava. Sua cabeça doía, seu corpo também. Em seu primeiro movimento na cama sentiu uma coisa em seu pênis. A camisinha ainda estava ali. Ainda bem que eu usei camisinha pelo menos, pensou. Quando tirou sentiu uma certa dor, suave, mas incômoda. Lembrou que a última vez que sentiu algo semelhante foi com a primeira namorada da faculdade na primeira vez que passou a noite em um motel. Levantou da cama e a mulher deitada era sim a morena de cabelos crespos. Estava deitada de bruços com o lençol lhe tapando só a bunda.
Foi ao banheiro e ao passar na porta do quarto de Gabriel, viu que ele estava deitado, tapado até a cintura. No seu ombro esquerdo estava uma morena e do esquerdo uma loira. Olhou mais especificamente para a loira e era uma das repórteres do jornal. Esqueceu o banheiro e foi até a cozinha. Sua garganta estava seca, tinha sede. Ao chegar à sala foi o espanto. Colocou a mão na boca para não rir, pois a cena além de chocante também era engraçada. Estava Marcelo deitado no carpete da sala e a garota deitada sobre ele. A cena descrevia perfeitamente duas pessoas que dormiram enquanto faziam um “69”. Ela com as pernas abertas, a cabeça dele no meio e ele abraçado nas coxas da mulher como se fosse um travesseiro. E a mulher deitada com a cabeça na coxa esquerda dele. O fator engraçado além da cena em si, era Marcelo abraçado nas coxas da mulher com a vagina dela há alguns centímetros do seu queixo e ele de boca aberta roncando. Felipe em meio a esta situação foi à geladeira, pegou uma garrafa de água e sorrindo voltou para a cama. Logo pegou no sono novamente.
Gabriel pegou duas panelas e foi para o quarto de Felipe. Eram seis da tarde, e Felipe estava em um sono profundo. Gabriel entrou no quarto batendo as panelas, só de cueca e gritando:
- EU BEBO SIIIIIIMM. ESTOU VIVEEEEENDOOO...
Felipe em um único salto parou em pé na cama gritando:
- QUE FOI! QUE FOI!
Gabriel parou de bater as panelas e seguiu com o tom de voz normal.
- Vamos arrumar a casa Bela Adormecida.
Nisso entra Marcelo no quarto pelado e com uma mão na testa e a outra coçando o saco.
- Puta que me pariu, cacete. Que porra é essa. Eu acabei de ir dormir – disse Marcelo resmungando e deitando na cama de Felipe que desceu da cama correndo.
Gabriel olhou para os dois e disse:
- Vamos nessa cambada. Eu já despachei as vadias. Agora temos que arrumar toda essa merda.
Marcelo levantou-se, ainda nu, e foi na direção da sala dizendo:
- Arrumar a casa é o caralho. Me deem um minuto e eu resolvo isso.
Pegou o telefone, discou o numero da boate e o colocou no ouvido:
- Alô! Sim é óbvio que é eu. Manda essas piranhas pra cá que eu tenho trabalho pra elas. Que parte do “AGORA” - gritou – você não entendeu. Você tem cinco minutos – jogou o aparelho no sofá e juntou sua cueca do chão.
- E aí garotas qual a banda de hoje? Eu to pronto para o crime – disse Marcelo.
- Eu fora dessa pessoal, tenho que trabalhar amanhã – disse Felipe com uma voz sonolenta voltando para o quarto.
Passaram cinco minutos e tocaram a campainha. Marcelo abriu a porta e mandou entrar. Cinco garotas, não muito bonitas entraram com baldes e esfregões. As garotas começaram a limpeza e meia hora depois estava tudo arrumado e limpo. Enquanto elas arrumaram a casa eles tomavam banho e ajeitavam pequenas coisas. Marcelo aproveitou a deixa e foi embora com as garotas. Gabriel foi ao quarto de Felipe que estava lendo e falou:
- O que você acha de irmos ao mercado comprar umas coisas. Prometo não comprar somente bebida desta vez – falou com um sorriso irônico.
- Por mim tudo bem. Estamos com a dispensa vazia mesmo – disse Felipe.
Pegaram o carro e foram a o hipermercado que havia no centro da cidade. Felipe notou uma tranqüilidade fora do normal em Gabriel. Estava com uma aparência tranqüila e satisfeita, coisa que poderia ter sido causada pela noite agitada que teve. Até o modo de dirigir estava diferente. Estacionaram o carro em frente ao mercado e Gabriel apontou para que Felipe pegasse um carrinho de compras. Entraram. Gabriel caminhou em direção às bebidas, e foi direto ao setor de sucos, pegou uma caixa e analisou. Felipe achou estranho. Pensou que poderia estar conhecendo o lado mais humano de Gabriel. Olhando-o desde que saíram, pensou que Gabriel vivia sob uma máscara, para fazer com que as pessoas não se aproximassem. Mas neste dia ele estava diferente. Parecia outra pessoa. Se topasse com ele na rua, até acharia que era um cara comum.
Felipe se afastou um pouco e foi procurar a garrafa de vinho que Sara havia lhe oferecido na noite anterior. Quando encontrou ficou pasmo. Ela estava no setor de importados e vinha dentro de uma caixa de madeira, toda estofada por dentro. O preço? Mil e quinhentos reais. Felipe ouviu um barulho de vidro se partindo. Olhou para o lado e um homem havia dado uma garrafada na cabeça de Gabriel que caiu sentado no chão. O homem apontando o dedo indicador para ele gritou.
- DESGRAÇADO FILHO DA PUTA! VOCÊ TIROU MINHA FILHA DE MIM!
Gabriel tonto pela pancada, e sangrando, pois ela lhe tinha aberto um grande ferimento ao lado da sobrancelha direita, só teve tempo de dizer:
- Mathias... O que... – não teve tempo de terminar de falar, o homem lhe enfiou um direto no mesmo olho que estava sangrando.
Felipe estava sem reação, não sabia o que estava acontecendo e nunca havia entrado em uma briga. Correu na direção deles e o homem quando o viu, saiu correndo. O homem fez a volta no corredor e enquanto as pessoas corriam na direção de Gabriel ele saiu tranqüilamente pela porta. Era um homem grande, de um metro e noventa, forte e gordo, com uma pele clara e um cabelo penteado para o lado na tentativa de esconder as falhas. Felipe se ajoelhou ao lado de Gabriel tentando reanimá-lo. Gabriel abriu os olhos, olhou para Felipe e desmaiou. Felipe olhou para as pessoas paradas em volta e disse:
- Que merda. PAREM DE OLHAR E CHAMEM UMA AMBULÂNCIA!
Gabriel acordou na cama de seu apartamento na Capital. O quarto estava vazio. Só havia a cama, e o teto parecia ter uns trinta metros de altura. Pareciam que haviam esticado as paredes laterais. As portas e as janelas estavam maiores. Sentou na cama e percebeu que estava vestindo um terno e camisa preta e uma gravata vermelha. Olhou em volta e não havia absolutamente nada. Procurou em seus bolsos e encontrou uma chave. Era a chave do carro de sua falecida mulher. Caminhou até a porta. Sentia uma ansiedade em sair logo daquele lugar. Atravessou a porta e estava em uma sala, muito semelhante a da casa de sua mãe, mas tudo era diferente. Era noite, e não havia cores no lugar, tudo parecia estar em tons pastel. Se olhasse de certo ângulo, a sala lembrava uma pintura barroca. Os móveis eram semelhantes ao da casa de sua mãe, mas pareciam envelhecidos. Não tinham toda aquela alegria e cor que a mãe adorava. Aproximou-se de um quadro acima da lareira. Algo embaçava seus olhos e não conseguia enxergar. Olhou para o relógio e ele marcava exatamente seis horas e 28 minutos. Quando tirou os olhos do relógio percebeu que ele estava pendurado em um poste de uma estrada escura. Estava amanhecendo. Não havia nenhuma luz para nenhum dos lados. Até que o sol começou a nascer, e viu o carro de sua falecida mulher capotado próximo da estrada a sua frente. Ele correu na direção do carro, mas parecia que a cada passo que dava o carro distanciava-se mais. Quanto mais corria mais longe o carro ficava. As lágrimas escorriam no seu rosto, enquanto ele gritava o nome da mulher. Viu o carro começar a pegar fogo, e correu mais rápido. Parecia correr flutuando, pois o carro não se aproximava, parecia estar cada vez mais longe. Até que o carro explodiu e a força da explosão o jogou com força para trás. Estava agora deitado na mesa de um açougue. Haviam pedaços de carne penduradas por todos os lados e ele sentiu um pavor enorme. Logo viu uma sombra passar por entre os pedaços pendurados. Era Mathias. Ele estava com um olhar malévolo. Sério e compenetrado. Ele aproximou-se do ouvido de Gabriel e disse:
- Você a tirou de mim. E eu vou fuder a tua vida seu filho da puta desgraçado.
Gabriel só o olhou e não disse nada, mesmo com o pavor tomando conta de sua mente. Gabriel agora estava nu e Mathias pegou uma faca enorme no faqueiro exposto a sua frente. Olhou para Gabriel com um sorriso diabólico e começou a carneá-lo. Fez um pequeno corte na coxa de Gabriel e segurou firme a pele a partir do corte puxando-a para cima. A partir dali, foi passando a faca extremamente afiada tirando pedaços da pele dele. A única coisa que podia pensar era que tinha morrido e estava no inferno. Ele tirava pedaços e pedaços do corpo dele, olhando-o como se cortasse a gordura de um pedaço de carne de gado para o churrasco. A dor e a agonia de Gabriel fizeram uma aura escura espalhar-se pelo ar. Sentiu uma picada no braço e estranhou em meio a toda aquela dor, conseguir incomodar uma picadinha no braço. Sentiu uma dor aguda na picada fechou os olhos e gritou. Quando acordou uma mulher vestida de enfermeira estava lhe colocando no soro. Estava em uma sala toda branca. Agora não sentia dor alguma. Seu corpo estava todo mole. Pensou que estava no hospital e seu momento não tinha chegado ainda. Ainda.
Felipe deixou o hospital às duas da manhã com Gabriel, que estava ainda meio grogue devido aos analgésicos. Ele havia tomado três pontos ao lado da sobrancelha, sob o curativo, seu olho estava roxo e meio inchado tapando-o pela metade. Felipe dirigia em direção a casa e cuidava o amigo, que observava a rua pela janela com um olhar distante. Nunca tinha dirigido um carro tão antigo como o Opala então demonstrava alguma dificuldade. Gabriel virou a cabeça para o lado de Felipe e disse com tom baixo:
- Você tem que trabalhar hoje ainda não é mesmo? Devia ter dormido cedo. Desculpe por isso.
- Não tem problema Biel. Só ainda não entendi muita coisa. O que aconteceu no mercado? Você lembra alguma coisa? – perguntou Felipe inocentemente.
- Queria não poder lembrar.
Felipe preferiu não perguntar mais nada. Gabriel não disse mais nenhuma palavra. Quando chegaram ao apartamento, ele andou devagar até o quarto, desligou a luz e deitou-se na cama. Felipe foi até o quarto do amigo, olhou ele deitado e foi se arrumar para dormir. Trocou de roupa, ajustou o despertador e deitou-se na cama. Logo adormeceu.
Felipe acordou cedo. Banhou-se, tomou café e saiu com a receita médica dos analgésicos que Gabriel devia tomar. O apartamento era muito bem localizado. Havia tudo perto, farmácias, mercados, shoppings, hospitais, escolas e o mais importante para ambos, o jornal. Felipe foi à farmácia que havia a uma quadra de distância, comprou os remédios e voltou para casa. Deixou um bilhete ao lado da cartela de comprimidos dizendo que Gabriel tomasse um a cada 12 horas. Era um remédio forte. Felipe serviu-se de mais uma xícara de café e sentou no sofá da sala. Ainda não entendia muito bem o que havia acontecido na noite anterior. Quem seria aquele homem? Pai da falecida mulher dele? E qual era a causa de toda aquela raiva? Pensando em algumas respostas não chegou à conclusão alguma. Olhou para o relógio da cozinha e estava na sua hora de ir. Tomou o restante do café, levantou e saiu.
Felipe chegou ao jornal quinze minutos antes. Gostava que fosse assim para rever tudo que tinha de fazer ao longo do dia. Olhou em volta e Cristina e Patrícia ainda não haviam chegado. Queria contar-lhes o que havia acontecido procurando algumas respostas. Percebeu que era observado e quando olhou viu que era a garota que havia dormido com Gabriel. Quando ele olhou para ela, ela desviou o olhar para o computador a sua frente. Seguiu para sua mesa, e passando pela mesa do seu chefe percebeu um bilhete preso ao teclado. Leu discretamente enquanto passava.
Marina 5762-4625
Adorei a noite
Marina era uma garota de seus 25 anos, cabelos ruivos, pele clara, olhos verdes, e um corpo muito convidativo. Sempre usava decotes e calças bem coladas ao corpo mostrando perfeitamente suas curvas. Felipe cortou o pensamento sobre o corpo de Marina ao ver Cristina sair do elevador. Levantou e seguiu-a até a sua mesa. Ela sentou-se e ele sentou na cadeira a sua frente. Contou a ela tudo que havia acontecido na noite anterior. Ela ouviu-o com um aspecto de pavor. Deixou Felipe terminar e disse:
- Meu deus do céu. Mas quem era esse homem? Porque ele fez isso?
- Não sei. Por isso vim lhe contar, pra encontrar respostas – disse Felipe.
Por trás dele chegava Patrícia e Cristina pensativa perguntou-lhe.
- Paty, qual era mesmo o nome do ex-sogro do Gabriel? Aquele que brigou com ele uma vez e tomou uma surra?
Patrícia pensou por um momento e respondeu:
- Era Mathias eu acho. Mas por quê? O que aconteceu? E onde está o Gabriel?
Felipe virou-se para ela e contou toda a história novamente. Quando concluiu Patrícia ficou chocada e demonstrou uma preocupação que tentava esconder.
- Mas e ele está bem agora? – perguntou - Bom vamos para a minha sala pra conversar sobre isso – disse ela caminhando em direção a sua sala.
Os dois a seguiram e sentaram nas cadeiras a sua frente. Ela sentou-se devagar não conseguindo esconder a preocupação com a história. Sacudindo a cabeça com os olhos baixos disse:
- Que droga. Esse Mathias é um grande filho da mãe. O que aconteceu foi o seguinte. Ele nunca gostou do Gabriel desde o inicio do namoro dos dois. Demonstrava sempre o quanto desprezava o relacionamento deles. Ele era do tipo que fazia questão de convidar o ex-namorado dela, que era, um riquinho filho de um amigo dele, para as reuniões de família, e ainda dizia na frente de todos que aquele era o genro dos sonhos dele. E você eu não sei Felipe, mas a Cris sabe bem como o Gabriel é. Sempre tem uma resposta na ponta da língua. E quanto mais irritado estiver, mais baixas são as respostas. O que aconteceu foi que em um dessas reuniões de família, que o Biel ia só por respeito a ela, esse Mathias bebeu demais e começou a ofender o Gabriel. Disse que ele era um pé rapado sem estrutura familiar, que não tinha onde cair morto. Que havia pagado um colégio caro e uma faculdade mais cara ainda, para ver a filha com um qualquer. E neste momento, até os familiares dele estavam dizendo incomodados com a situação. A falecida então começou a brigar com o velho para que ele parasse com aquilo. E nisso, ele deu um tapa na cara dela, dizendo que ela era uma vagabunda por andar por aí com um vagabundo desses. Isso o Biel não admitia. Ele voou pra cima do velho e quebrou dois dentes dele com um único soco. A partir daí deu uma grande confusão, a família separou a briga e ela saiu de casa pra morar com o Biel. Eles estavam a dois meses de se formar. Terminaram, foram para a capital e ela não falou com o pai nunca mais. Isso é o que eu sei que ele me contou antes de ir embora.
Felipe e Cristina estavam com uma aparência de espanto e atenção.
- Nossa. Eu não sabia de nada disso – disse Cristina.
- Eu então não fazia idéia – afirmou Felipe.
- Bom, mas vamos trabalhar que já passou da hora não é mesmo. E Felipe, quando você for embora me avise que eu vou passar lá na casa de vocês pra ver como ele está – disse Patrícia de forma autoritária.
Felipe acenou que sim com a cabeça e Cristina adiantou-se.
- Vou junto. Ele deve estar precisando de todo o apoio agora.
Felipe e Cristina foram para suas mesas e seguiram suas rotinas.
Próximo das 22 horas Patrícia aproximou-se da mesa de Felipe com ar de cansada.
- Felipe, estou pronta. Quando quiser podemos ir.
- Ok. Mais dois minutos e estou pronto – respondeu ele.
- Certo. Vou descendo. Te espero lá em baixo.
Felipe terminou de postar a ultima reportagem do dia e acenou para Cristina ainda sentada na sua mesa. Ambos desceram, encontraram Patrícia no saguão e seguiram em direção ao carro dela. Entraram e ela estava inquieta. Cristina sentou ao seu lado e Felipe sentou no banco de trás. Patrícia olhou para trás buscando Felipe e disse:
- Será que ele está bem?
Felipe prontamente respondeu:
- Acho que sim. Ele tinha tomado muitos analgésicos. Deve estar dormindo até agora.
Estacionaram a frente do prédio de Felipe. Felipe fez uma pausa em frente à porta de seu apartamento para procurar a chave. Abriu a porta e logo olhou pelo chão, milhares de cartões de feliz aniversário, Natal, entre outros, espalhados pelo chão. Os três foram correndo os olhos pelo chão, mais adiante estavam fotos de casamento e um álbum rasgado ao meio. Mais adiante, estava a cartela dos analgésicos que Felipe havia comprado completamente vazia ao lado de uma garrafa de vodca deitada com boa parte do líquido derramado pelo chão. Deram uns passos a frente para ter uma visão maior e viram Gabriel atirado no chão de bruços parecendo estar inconsciente. Felipe correu em sua direção e virou-o. Patrícia e Cristina ficaram paralisadas com a cena. Felipe viu que Gabriel não estava totalmente fora de si. Ainda respirava dava gemidos tentando falar. Ele olhou ao redor sem saber o que fazer. A única coisa que pode pensar era em levá-lo para o chuveiro. As duas ainda estavam paralisadas enquanto ele o carregava para o banheiro. Colocou-o no Box, mudou o chuveiro para o frio e abriu a torneira. Gabriel começava a acordar. Felipe voltou para a sala e disse para Cristina.
- Cris, as coisas do café estão no armário em cima da cafeteira. Faça um café bem forte – ela meio perdida em meio a situação seguiu para a cozinha.
Felipe deu um banho gelado em Gabriel, trocou sua roupa molhada, e nisso Cristina observava e ajudava, não deixando de observar o corpo dele tentando desviar-se de pensamentos maliciosos. Gabriel estava com uma cueca samba-canção sentado ao sofá com Felipe de um lado e Cristina do outro lhe dando café. Patrícia estava sentada na mesa de centro observando. Quando percebeu que ele estava recobrando a consciência ela não hesitou em perguntar:
- Biel o que aconteceu?
Ele olhou-a nos olhos com um olhar infantil de quem havia feito uma sacanagem e começou a falar com lágrimas nos olhos.
- Nós brigamos – disse ele ainda com a voz muito fraca. Parecia que estava bêbado – na noite anterior. Brigamos por um motivo idiota. Brigamos e dormimos sem, nem mesmo, dizer uma palavra um ao outro. Ela havia ficado muito brava, e eu por ser orgulhoso, não admiti que a culpa era minha, que eu era um idiota. E mesmo assim, quando acordei antes dela, ela havia deixado um bilhete na porta da geladeira dizendo que me amava. Quando acordei, lhe dei um beijo na testa e fui me arrumar, pois estava atrasado para variar. Ela sempre acordava junto comigo para tomarmos café, e neste dia ela dormiu até mais tarde. Saiu do trabalho atrasada e correndo. Pegou o carro e foi trabalhar. O pneu furou e ela não conseguiu controlar, estava rápido demais. O carro bateu no meio fio e capotou oito vezes. Ela deve ter morrido lenta e dolorosamente e eu nem pude dizer, por uma ultima vez o quanto a amava. Eu já estava no jornal na hora que me ligaram. Ligaram para mim e para aquele filho da puta do Mathias que chegou antes de mim no hospital. Ele jogou toda a culpa em mim ali mesmo, sobre o corpo da filha dele. Tive que ouvi-lo dizer milhares de barbaridades boca fora no velório, e em respeito a ela não fiz nada – nesse momento as lágrimas começaram a escorrer – Depois disso foi só sofrimento. Bebi e cheirei tudo que tinha. E agora estou aqui, com sono. Vou-me deitar.
Levantou-se meio tonto e Felipe lhe agarrou pelo braço para ajudá-lo a caminhar até a cama. Patrícia foi acompanhando. Patrícia virou-se para Cristina e disse:
- Cris, se quiser ir para casa pode ir. Vou ficar para cuidar dele.
Cristina ficou pasma com a reação da amiga. Neste momento, não teve dúvidas que ela sentia um sentimento forte por Gabriel. Patrícia ajudou Felipe a colocá-lo na cama e disse para que ele fosse fazer suas coisas que ela cuidaria dele a partir daquele momento. Tanto Felipe, quanto Cristina não entendiam a reação dela. Era totalmente fora do que ela demonstrava todos os dias anteriores. Mesmo sem entender, Felipe acompanhou Cristina até a porta e depois foi jantar para depois tomar banho e dormir.
Patrícia colocou sobre a cômoda sua bolsa e seu casaco e sentou-se no outro lado da cama. Ficou por um tempo observando Gabriel em um sono profundo. Começou a refletir sobre o quanto ele devia ter sofrido em silêncio e o que deveria ter passado pela cabeça dele desde a morte da esposa. Ele finalmente havia encontrado a felicidade, uma mulher que ele amava de uma forma tão pura e incondicional. Que o compreendia, o completava e o fez mudar da água para o vinho. Ele havia deixado uma vida onde noitadas regadas a um excesso de sexo, bebidas e drogas eram uma coisa comum, para entregar-se a uma única mulher. Lembrou do brilho que ele tinha no olhar ao falar dela, como se falasse de seu maior ídolo. Devia mesmo ser. Nem ele acreditou que ela o faria mudar daquela forma.
Começou a lembrá-lo na faculdade antes dela entrar em sua vida. Sempre rodeado de belas garotas, com as quais a maioria já havia transado. Era o tipo de homem atraente e misterioso, que atiçava a curiosidade das mulheres no sentido sexual da coisa. Fazia-as pensar o porque todas aquelas garotas sempre o rodeavam mas ele nunca estava com alguma delas especificamente. Gostava de cumprimentá-las com abraços apertados, com leves puxões pelos cabelos da nuca, deitar-se nos seus braços para receber carinho, ou tê-las em seus braços para acariciá-las. Até mesmo as que eram comprometidas, gostavam de conversar com ele para serem aconselhadas, às vezes, até mesmo sobre como elas deviam agir com os namorados na cama. E se os namorados não dessem conta do recado, com certeza ele acabava dando, até por algumas vezes acabando com relacionamentos.
Não era o melhor aluno na faculdade, mas ganhara o respeito de muitos professores pela simpatia e personalidade forte. Coisa que o fez ser respeitado também por muitos colegas. Alguns até precursores de milhares de boatos sobre ele, que o fez ganhar uma enorme fama. Alguns boatos ninguém sabia se era verdade, pois ele não falava sobre nada, tanto que se alguém ficasse sabendo de alguma coisa, era certo que havia partido da outra pessoa envolvida. A história sobre uma jovem professora que havia entrado na faculdade, que segundo alguns alunos e professores que eles haviam transado dentro da sala ao final da aula, foi a de maior repercussão. Ele sempre afirmou que eles ficaram conversando sobre música, assunto que ele dominava muito bem, mas ninguém dava bola para isso, queriam era ter o que falar. Ele raramente se intrometia na vida ou falava sobre alguém. Gostava de falar as coisas na cara das pessoas. Preferia que as pessoas soubessem o que ele pensava sobre elas ou sobre seus atos, mas raramente falava sem que lhe fosse perguntado, e se perguntassem deviam estar prontos para ouvir toda a realidade sobre o assunto.
Neste momento, Patrícia já estava descalça deitada na cama ao lado dele. Deu mais uma olhada para ele para ver se estava tudo certo e fechou os olhos. Logo adormeceu.
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